O romance desafia nos a convicção, por vezes tira a paciência, e pode até nos subtrair alguns anos da vida, mas quando é que alguém, por um segundo que fosse, deixou de viver sem ele? As nossas aspirações vão, cada vez mais, aproximando-se da realidade; a gente passa a prometer menos, mentir menos, e chega até a achar que, desta vez, erraremos menos, por julgarmos saber onde escondem-se todas as bombas desse campo minado. Nem preciso de lembrar que a única certeza no romance é a de se estar eternamente em apuros, contrasteando as pernas para não se deixar afundar totalmente no obscuro e indecifrável oceano que é a vida daquela pessoa com a qual estamos de mãos dadas. Em apuros pois é perigoso. É perigoso porque a gente arrisca. E a gente arrisca porque quer. Ninguém nos obriga a viver o amor, mas a gente ama vive-lo. Ninguém nos obriga a sentir as mesmas dores de novo, mas a gente quebra se em mil pedaços para sentir o prazer na cura. A gente acha que pode viver sem ele, mas as palavras soluçadas no fim de uma noite aberta evidenciam o que, para todos ao nosso redor, já era óbvio: estamos lixados. Em apuros não estou só eu, estamos todos nós, meus caros. Romance é o que se persegue pelas esquinas, que foge à luz dos postes, e ele está bem. Em perigo estamos nós, nesse apuro que reside na nossa urgência em vive-lo. Vive-lo, mesmo que esteja torto, inacabado, ferido, precipitado, errado, proibido, ou impossível. Vive-lo de verdade, com intensidade e sem escudos. Como deve ser, e como inevitavelmente é, quando o nosso coração nos dá aquela única e inevitável rasteira que nos faz ficar no chão. Viver o romance é estar em apuros. Estou a viver e não quero ser salvo.